Como Vão Nossas Sessões de RPG

O último post desse blog foi onde eu falei sobre Shadowrun, contando sobre o drama de tentar jogar um RPG de mesa cyberpunk. No fim a história teve um final feliz, onde nós acabamos por usar Savage Worlds: Adventure Edition e deu bem certo. Mas depois de um tempo, quando o meu hype com cyberpunk diminuiu (em parte pelas falhas da Null Signal Games não conseguindo enviar as cartas do jogo pro Brasil1), fui reassistir a trilogia Senhor Dos Anéis, e fiquei com vontage de jogar algo mais medieval.

Pra isso, já sabia qual sistema usar, e até fui comprar o livro físico (já que só tinha o digital, que é de graça). Com o Dungeon Worlds em mãos, organizei um one-shot pra ver se todos gostaríamos do sistema, e deu certo: todos aprovamos o resultado2. Inicialmente o plano era alternar entre a campanha Cyberpunk e a Medieval, mas como ficamos várias sessões sem jogar Shadowrun, acabei por abandonar a ideia e focar apenas no Dungeon World. Atualmente, os heróis estão buscando alguma maneira de destruir uma jóia que parece ter a capacidade sobrenatural de influenciar e ser cobiçada por pessoas (familiar, não?).

Imprimindo Livros (de RPG)

Com feriados de Natal e Ano Novo, fizemos um hiato de sessões pelas viagens de todos. Na volta, decidimos tornar o RPG uma coisa mais recorrente, e pra dar uma renovada nos personagens, sugeri usar o suplemento que adiciona mais classes: Class Warfare. Uma coisa triste do drivethrurpg é que a gráfica que eles usam tem filiais apenas nos EUA e no Reino Unido; leia-se, o frete pro Brasil sai salgadíssimo. E esse dinheiro não vai nem vai pros autores, nem pro drivethrurpg! É só pra levar papel através das Américas! Então me contentei em comprar as versões digitais dos livros que eu queria.

Página final de uma compra online. Ela mostra o frete custando 37 dólares.

Foi nesse ponto que tive uma conversa com um primo meu. Ele comentou que comprou o seu Dungeons & Dragons B/X compilando os dois livretos dentro de uma só capa dura e enviando os PDFs para que a Oficina do Orc imprimisse. O resultado ficou lindo, e me animou pra tentar fazer a mesma coisa.

Mandando emails para o Orc, não recebi respostas sobre o orçamento (devo ter digitado errado o endereço). Mas é claro que, ao invés de só tentar novamente e seguir minha vida, eu entrei na toca do coelho de impressão de livros e fui tentar fazer por conta própria. Felizmente, a Fábrica do Livro providencia exatamente os serviços que eu queria: impressão de livros em tiragens pequenas, baratas, e sem ajuda (apesar de indicarem profissionais que poderiam ajudar com diagramação/design de capa/…).

O primeiro livro que tentei imprimir foi o The Perilous Wilds. Como foi a primeira vez, aprendi muito e cometi erros que não farei novamente. Primeiro, uma coisa que eu tinha todas as informações para entender, mas nunca parei pra prestar atenção: a grossura da lombada (a lateral da capa do livro, visível quando está guardado na estante) depende da quantidade de folhas dele. Como a capa é uma imagem só, impressa e dobrada, é necessário calcular o tamanho da lombada!

Então meu maior trabalho nessa edição foi preparar a capa. A edição digital não tem contra-capa, que me forçou a improvisar uma. No fim o que eu fiz foi apenas usar uma cor parecida com o fundo da capa original, e usar uma ilustração do monstro lendo o próprio Perilous Wilds (espero que o ilustrador, @kenywid, não se importe!). Uma coisa que fiz que poderia ter acabado de vez com o resultado foi não ter redimensionado o PDF original. Ele vinha em 14x21.6cm, enquanto que o meu pedido foi para 14x21cm. Por sorte, são apemas 0.6cm.

Eu escolhi um papel meio amarelado por que achei que combina mais com a estética do livro. No geral, fiquei muito satisfeito com o resultado. Só mudaria duas coisas se fosse repetí-lo: Botar algum texto na contra-capa pra não ficar tão vazia, e adicionar mais margens no interior das páginas. Achei que o que vinha no livro seria suficiente, mas pensei errado: o texto entra um pouco além do que é confortável para a leitura.

Montagem mostrando a capa, contra-capa e miolo da impressão de The Perilous Wilds.

No total, a empreitada me custou R$60, e com um frete de R$10, chegamos no total de R$70 para 4 cópias (tiragem mínima) do livro de 76 páginas em preto-e-branco, que eu achei um preço ótimo. Uma cópia eu dei pro meu irmão, e as outras duas eu pretendo dar pra jogadores que estiverem afim. No momento, estou imprimindo o Class Warfare. Capa já feita (com detalhes na lombada), margens ajustadas, e mandado pra impressão: 4 cópias do livro de 328 páginas em preto-e-branco ficou R$150, junto de um frete de R$15, o total é de R$165. De novo, me parece um preço muito bom, e esse eu pretendo manter as 4 cópias comigo: por ser um suplemento para criação de personagens (processo normalmente feito em grupo), é bom ter um para cada pessoa que estiver criando um.

Aliás, é legal fazer isso? De acordo com o jogador de GURPS e advogado (a graduação mínima para entender as regras desse jogo) Daniel “Nerun” Rodrigues, é legal contando que você tenha a permissão expressa do dono do material. Por preguiça eu não pedi permissão, então estou cometendo ilícito, mas espero que os autores não se importem (os PDFs pelo menos eu paguei)!

Jogando RPG Online

A volta do período de férias combinou com a adição de dois membros ao grupo de jogo: passamos a ter 6 jogadores e 1 mestre, divididos em duas cidades vizinhas, estudando e trabalhando. Não preciso falar que a maior dificuldade pra nós é achar um momento que todos possamos jogar: Nos finais de semana temos tempo livre, mas é normal marcarmos outras coisas. Durante a semana, estamos todos ocupados demais para ter tempo de ir e voltar para outra cidade. No final, optamos por mover a mesa de presencial para online (eu continuo imprimindo livros, por que é legal).

Pra áudio usamos o Discord, onde já tínhamos todos em um grupo. Agora, pra gerenciar o jogo, seguimos uma rota bem pouco padrão. Eu gosto de soluções “multiplayer” para as coisas (coisas no estilo Tabletop Simulator ou Google Docs), já que ver o cursor dos outros me permite ver exatamente de que parte de um texto vem uma dúvida, ou coisas assim.

Usar o Tabletop Simulator está fora de questão, já que a gerência de texto dele é horrível, e ia ser o inferno gerenciar a ficha nele. A ideia que eu impus sugeri foi usar o excalidraw pra tudo. Ele é um software de colaboração em quadro branco, que eu costumo usar no trabalho para diagramar e explicar coisas para meus colegas. Ele tem uma estética de coisa feita a mão, que fica ótima em lugares como o mapa. Ele tem uma opção de snap to grid, mas não acho que seria uma boa tentar um combate mais tático nele (jogamos apenas no teatro da mente). Tem dado bem certo, e a liberdade de escrever onde você quiser (versus um formulário pronto na internet, como em sistemas do tipo Roll20) é muito conveniente.

Um quadro digital mostrando várias fichas de personagem, resumo de regras do jogo, links úteis, e um mapa muito simples de uma região de um mundo fictício.

Mas nem tudo são rosas. Você sabia que o excalidraw usa o Firestore pra armazenar os dados dos quadros? Eu descobri só quando estávamos fazendo nosso quadro! Um alerta apareceu, avisando que o “quadro não pôde ser salvo”. Acontece que o Firestore tem um limite de 1MiB por documento… e isso não poderia ser superado nem mesmo pagando o ExcalidrawPlus. O que fazer então?

Claro que a resposta mais fácil seria procurar uma alternativa, mas eu gosto bastante do excalidraw. A ponto de ter feito um fork removendo a dependência com o Firebase. E adicionado compressão ao quadro, para que ela ficasse abaixo de 1MiB quando salvo (o nosso está em uns 300KiB). E depois percebido que se eu só tivesse implementado a compressão, não precisaria sequer ter removido o Firebase e terminado com uma solução mais fácil, simples e estável. Mas foi um domingo divertido e bem gasto!

Uma coisa que nunca tinha usado muito em RPGs presenciais era som. Por já estar na frente do notebook nas sessões online, decidi esperimentar um pouco com isso. Achei umas trilhas muito legais no Bardify e toquei durante uma sessão, mas percebi que ficar com várias abas abertas no youtube não é a melhor maneira de gerenciar isso (e meu notebook é fraquinho). Então eu baixei o PocketBard no meu celular, e transmito o áudio com o scrcpy para meu computador: $ scrcpy --no-video --audio-buffer=100 --audio-codec=aac. Espero usar ele depois de amanhã pra ver como é, mas estou animado.

Espero escrever mais sobre nossas sessões em breve. Os jogadores têm uma casa, espero decorá-la também no excalidraw. Quero mostrar o meu caderno de notas do mestre, acho que ele está funcionando num modelo legal. E, quando a impressão do Class Warfare ficar pronta, vou compartilhar logo como ela ficou. Talvez eu até diga algo sobre as pequenas mudanças que fizemos em um ou outro movimento do Dungeon World original? Não sei, mas o que importa é que eu estou, novamente, super animado com poder mestrar uma campanha de RPG. Até a próxima!


  1. Digo isso sem o menor pingo de criticismo, apenas mencionando o ocorrido. Sendo tocada por voluntários, já me parece incrível termos um jogo tão polido quanto está o Netrunner. ↩︎

  2. Talvez tenha mais a ver com o fato de RPG ser naturalmente divertido (como já dizia Quintin Smith) e menos com a escolha de sistema, mas isso ainda não tira o mérito de Dungeon World ter nos propiciado uma sessão divertida. ↩︎